PROBLEMAS COMPORTAMENTAIS
DE GATOS


Ter mais de um gato em harmonia
(um precioso conjunto de informações para quem tem
ou terá mais de um gato)

Passeiam e dormem juntos, intercalando companheirismo e carinho com isolamento, à moda felina. Há casos, porém, em que dois deles se olham e lá vêm rosnados, pêlos eriçados e posições de ataque, às vezes evoluindo para o confronto físico e causando trauma generalizado. Como evitar o estado de guerra entre gatos? Se a interação correr bem desde o início, tenderá a evoluir sem problemas. Mesmo quando o incomodado for um gato dominante, bastará o outro suspender a provocação e o incidente será esquecido, resumindo-se a melhorar a definição das posições hierárquicas. Mas a situação poderá evoluir rapidamente para uma briga, se a ação indesejada prosseguir. Além do trauma e dos arranhões, virão prováveis novas agressões, cada vez dificultando mais a administração do relacionamento (veja o depoimento Entre pêlos eriçados e arranhões).

A maneira como se introduz um gato no novo ambiente pode ajudar muito na construção de um convívio harmonioso (veja o passo-a-passo Para evitar brigas nos primeiros encontros). A técnica de aproximação vale para todos os gatos, mesmo nos casos aparentemente mais simples, como os da introdução de um filhote. Até os pequeninos, às vezes, não são bem aceito por algum gato (veja o depoimento Diplomacia à moda felina). “Casos de brigas violentas de adultos com filhotes, bem mais frágeis, ocorrem com relativa freqüência, causando a morte de alguns deles”, alerta Carlos Alberts, estudioso de felinos e professor de zoologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Assis, SP. Mais um fator que pode facilitar a introdução é o baixo grau de excitabilidade. “Gatos pesadões, como o Persa e o Himalaio, de temperamento tranqüilo e menos reativos que a média, costumam ser mais rapidamente aceitos pelos demais”, comenta o comportamentalista especializado em animais, Alexandre Rossi. De outra parte, um grande desafio é conseguir harmonia entre dois machos adultos não castrados. “Nesse caso, por melhor que seja a aproximação, é difícil ver os gatos se darem bem”, comenta Alexandre. “No entanto, o macho não castrado costuma ter um bom convívio com as fêmeas e com machos castrados que não adquiriram o hábito de brigar.”

Depois da apresentação do gato ao grupo, é função do dono ficar de olho, zelando pela harmonia geral, agindo de forma a não estimular desavenças. Algumas dicas: dar atenção a todos os gatos, distribuir a alimentação e a água em recipientes individuais, manter caixas sanitárias superando em uma unidade a quantidade de gatos, ter espaço para todos os felinos na área de descanso e banho de sol, oferecer brinquedos à vontade, inclusive arranhador de escalar. Mais uma vez a castração deve ser mencionada. Sua maior eficiência para o convívio pacífico ocorre quando é feita antes da produção dos hormônios sexuais pelo organismo, fator importante no surgimento de brigas (em geral, nos machos esses hormônios começam a aparecer entre os 8 e os 12 meses e nas fêmeas, entre os 5 e 7 meses). “Com a castração precoce, os machos ficam menos territoriais e as fêmeas perdem os picos de agressividade ligados ao cio e ao pós-parto”, explica Carlos Alberts. Outra ação para evitar confrontos é ficar atento a mudanças na interação dos gatos. Cabe ao dono interromper os desentendimentos no início, para não virarem brigas. Se surgirem confrontos, é difícil acabar com eles, mas não impossível. “Uma dica que pode dar certo é introduzir mais um gato, de preferência filhote, o que redistribui o território e altera os relacionamentos”, sugere Carlos Alberts. “Quanto mais gatos houver em um espaço, menor a probabilidade de brigarem.” O escritor e prêmio nobel de literatura Ernest Hemingway disse certa vez: “um gato sempre leva a outro”. E nós completamos: “conviver com muitos gatos é um prazer, maior ainda quando conseguimos mantê-los em harmonia”.

DIPLOMACIA À MODA FELINA

Acabaram-se as ameaças de briga entre a gata Sofia e a recém-chegada Aninha, quando as intervenções da dona, a corretora de seguros Amara Luisa Ramos, facilitaram a aproximação.

“Há cerca de dois anos abriguei uma gatinha que vi abandonada na rua. Ela ainda era pequena — nem desmamada estava. Chamei-a de Sofia. Por cerca de dez dias, toda a família colaborou: tivemos de dar mamadeira a ela, aquecê-la com luz artificial e estimulá-la a urinar e defecar, como fazem as mães gatas com os filhotes. Sofia cresceu apegada, até demais. Deprimia-se com as minhas freqüentes ausências e miava triste e alto quando eu não estava. Pouco brincava e quase não comia. Certo dia, o destino colocou Aninha à minha frente, no estacionamento de um supermercado. Era uma gatinha de cerca de um mês de idade. Animada, levei-a comigo, e apresentei-a a Sofia. Soltei Aninha, que se afastou assustada. Sofia seguiu-a, cheirou-a, rosnou e pressenti a possibilidade de uma briga. Tirei Aninha e coloquei-a num lugar não muito distante. Passado um tempo, Sofia se aproximou de novo, e tudo recomeçou. Por uma semana a cena se repetiu diariamente. Sempre havia alguém da família supervisionando para tirar Aninha assim que surgisse ameaça de briga. Quando Sofia não rosnava, as duas continuavam juntas. À noite, Sofia dormia na minha cama e a porta do quarto ficava fechada para Aninha ficar em paz na caminha da sala. Com esse patrulhamento, elas nunca brigaram e assim acho que evitamos traumas. Para não facilitar disputas, coloquei potinhos de ração e água individuais, em 39 lugares diferentes. Sofia costumava descansar numa cestinha que fica na cozinha. Aninha descobriu outra na sala de jantar e se apossou dela. Procurei sempre dedicar igual atenção às duas. Aos poucos, os rosnados e chiados diminuíram. Em poucos dias, Sofia já dava as primeiras cheiradas amistosas em Aninha. Depois, arriscou lambidelas. Passados mais três dias, os sinais da agressividade eram coisa do passado.Agora, dois anos mais tarde, Sofia e Aninha continuam se dando bem. Intercalam períodos de solidão — afinal, são felinas — com momentos de brincadeiras e companheirismo. De manhã, antes de sair, brincamos as três com bolinhas de papel. Durante o dia, quando jogamos brinquedinhos para Sofia e Aninha dorme, Sofia faz questão de levá-los para perto da amiga. A fórmula é perfeita. Não há mais tristeza. Os choros de Sofia se foram. Ela se tornou mais brincalhona, passou a comer bem, e eu posso sair de casa tranqüila, segura de que Aninha e Sofia ficam em boa companhia”.

O primeiro encontro de um gato com outros é sempre importante. As interações iniciais criam o padrão de comportamento futuro. Por um lado, os rosnados e as disputas ajudam a definir as posições de cada um, e são aceitos com naturalidade pelos felinos. Por outro, podem evoluir para o confronto físico e tornar-se o início de um ciclo de brigas, dificílimo de reverter, ainda mais se os briguentos saírem feridos. A idade conta muito. Se os gatos a serem apresentados forem adultos, e tiveram pouco contato com outros gatos, há uma chance de cerca de 90% de que as coisas acabem mal. Se o novo gato for filhote ou se for castrado, e se o veterano já conviveu ou convive com outros gatos, as chances de sucesso aumentam, mas mesmo assim existe a possibilidade de brigas. Entre os gatos, o confronto de um adulto com um filhote é sempre uma possibilidade e pode significar a morte do segundo. Administrar bem o convívio começa com a introdução do gato novato sem permitir que uma briga comece. Conheça a maneira mais segura de obter esse resultado, válida para gatos de todas as idades.

PARA EVITAR BRIGAS NOS PRIMEIROS ENCONTROS

OS PREPARATIVOS
Três dias antes de o novo gato chegar


Bloqueie o acesso dos veteranos ao cômodo que abrigará o novo gato: antes de o novato chegar, impeça o acesso dos veteranos ao cômodo onde ele ficará temporariamente, para não associarem a perda daquele espaço com a presença do recém-chegado (veja Prepare o cômodo para resguardo temporário). Antecipe a criação de associações positivas pelos veteranos com o cheiro do gato que virá em breve: isso pode ser feito antes de o novato chegar. Passe alguns panos nele para o cheiro dele ficar bem impregnado (mesmo que você não perceba, o odor estará lá). Coloque-os nos locais mais apreciados pelos gatos da sua casa (embaixo do comedouro, na caminha, onde brincam). Antes de ficar com eles, esfregue as suas mãos num dos panos. Mantenha sob controle a atenção aos veteranos: cuidado para não dar excesso de atenção aos veteranos nos dias que antecedem a chegada do novato. Diminuí-la depois, quando ele chegar, causará uma associação negativa.


LOGO APÓS A CHEGADA DO NOVO GATO

Forçando o isolamento inicial

Não permita contatos físicos nem visuais, no começo: antes de submeter o novato ao estresse da aproximação com os veteranos, faça-o recuperar-se do estresse da mudança. Geralmente, quatro dias bastam para ele voltar a se alimentar bem e para as funções intestinais serem regularizadas. Mas, por questões de saúde, mantenha o gato confinado por pelo menos uma semana (veja Precauções de saúde). Reforce as associações positivas usando o cheiro dos gatos: enquanto o novato se recupera, confinado, manipule-o pelo menos três vezes ao dia e, sem lavar as mãos, crie oportunidades para que os veteranos façam associações positivas com o cheiro dele: brinque com eles, alimente-os e dê-lhes carinho em dose reforçada. Passe também a alimentar os veteranos perto do cômodo onde estiver o novato e continue colocando panos impregnados do cheiro do novo gato nos locais preferidos por eles. Ponha panos com o cheiro dos veteranos no cômodo do novato.


QUANDO O CHEIRO DO NOVO GATO FOR CONHECIDO

Permitindo os primeiros contatos visuais e olfativos

Dois endereços por alguns dias: para poder iniciar essa etapa é preciso que o novato aceite naturalmente ficar na gaiola. Caso contrário, será necessário acostumá-lo, servindo a comida dentro dela. Algumas vezes por dia, a gaiola com o novo gato deverá ser posta próxima aos veteranos em situações agradáveis para eles, como quando comem, descansam ou brincam, para criar associações positivas. A primeira aproximação dos veteranos poderá acontecer logo ou demorar alguns dias. Dê sempre atenção e alimento aos veteranos perto da gaiola. Quando um deles se aproximar do novato e cheirá-lo, dê-lhe petiscos. Se tiver atitudes agressivas, reprima espirrando água com spray. Fora dos períodos dessas interações, o novo gato irá ao cômodo, para comer, fazer as necessidades e se exercitar.


DEPOIS DE A INTERAÇÃO TER-SE INICIADO
O primeiro contato físico é feito.

O novo gato fica solto, e você observa: leve o gato novato na gaiola para perto dos demais. Espalhe brinquedos e objetos novos no local, para não gerar associações negativas. Adicione uma nova caixa higiênica. Quando os gatos parecerem acostumados visual e olfativamente ao novato, solte-o. Alguns rosnados são normais no começo. Se uma briga for iminente, use um spray de água (veja Separe os briguentos). Fique de olho nas aproximações espontâneas. Zele para o gato novo não incomodar os veteranos ao comer, beber e fazer as necessidades. Permita que o veterano mantenha a sensação de controle sobre seu território, comida e caixa higiênica. O ideal é a quantidade de caixas sanitárias superar ade gatos em uma unidade. Enfim, livre, mas sem estímulos às disputas: passadas as primeiras horas e tudo correndo bem, administre a interação procurando brincar, dar comida e atenção aos veteranos e ao novato igualmente. Nunca os deixe disputar comida; dê os petiscos em pequenos pedaços para que um não possa roubar do outro.


TÉCNICAS FUNDAMENTAIS

Prepare o cômodo para resguardo temporário: pode ser um quarto ou banheiro, por exemplo. Equipe-o com o necessário para uma boa estada do novo gato:comedouro, bebedouro, caixinha sanitária e brinquedos. Ponha também uma gaiola de tipo exposição, para o gato não estranhá-la quando for necessária (veja Dois endereços por alguns dias). Ela deve ter as grades suficientemente estreitas para impedir que um gato do lado externo machuque o gato do lado interno.

Volte atrás, se necessário: se o estágio da aproximação não estiver dando bom resultado, volte ao último passo que funcionou e retome a aproximação a partir daí.

Elimine causas de disputas: fique atento e aja com rapidez quando houver ameaça de briga. Se preciso, ponha mais comedouros, bebedouros, caixas higiênicas, etc.

Evite brigas devido à mudanças: cada nova situação pode ser causa de brigas. Por exemplo, elas surgem por motivos como: o gato ir ao veterinário e ao voltar ter que reconquistar território, que já passou por nova distribuição; aparecer com outro cheiro depois de tomar banho e ser estranhado e agredido; ficar inseguro, na defensiva, por terem posto uma roupinha nele, e passar a agredir os companheiros que se aproximam. Um jeito de evitar esses problemas é fazer a reaproximação com cuidado, ficando de olho para interromper o início de uma briga e desviar a atenção do grupo para um fato novo, com um estímulo, como dar um petisco para cada um.

Cuidado com mudanças ambientais: introduza com atenção um novo animal ou pessoa, para não desencadear brigas ou comportamentos agressivos. Atue cuidadosamente ao mudar de casa ou ao alterar o lugar onde o gato fica, já que são situações que podem aumentar a agressividade dele.

Separe os briguentos: deixe espalhados pela casa alguns sprays com água, com boa mira. As demonstrações de agressividade poderão virar brigas e deverão ser interrompidas de imediato, com ligeiros jatos do spray no gato agressor, sem exageros. Apenas o suficiente para criar uma sensação desconfortável, no exato momento do confronto. Três segundos depois pode ser tarde demais. Deixe que os gatos se aproximem novamente, se você sentir segurança, mas volte a usar o spray se a agressividade retornar, para ficar claro que a causa do jato é a atitude agressiva. Um gato deve se sentir seguro na presença de outro. Ser objeto de arranhões lhe causará medo e ele poderá atacar o outro por defesa. O spray, além de causar desconforto sem machucar, permite controlar a situação a distância, evitando que sobrem arranhões para o dono. Não se deve tentar separar brigas sacudindo comida ou indo em direção à geladeira, pois com o tempo os gatos aprendem a brigar para ganhar comida.

ENTRE PÊLOS ERIÇADOS E ARRANHÕES


Depois da chegada do gato Zeca ao apartamento onde já vivia o gato Mike, o clima de guerra começou no lar da instrumentadora cirúrgica Vera Shiota, de São Paulo.

“Zeca entrou em nossas vidas há cerca de dois anos. Foi quando eu esperava o elevador. Vi Zeca me olhando — alguns moradores do prédio costumam deixar comida para gatos no piso térreo e eles sempre aparecem. Chamei-o, Zeca veio, entrou comigo no elevador e me acompanhou ao apartamento, onde se encontravam Mike, o meu gato de três anos, e a mãe dele, Teca, que tirei das ruas quando estava prenhe, esperando inclusive o próprio Mike. Ao ver o intruso, Mike fugiu para o nosso quarto, onde dorme na minha cama. Abriu a porta do armário e se escondeu. Teca, mais tranqüila, foi até a caminha dela no quarto da minha filha. Não estranhei a reação. Esse comportamento é típico da dupla quando levo gatos para alimentar em casa. Depois de comer, Zeca inspecionou o apartamento e se instalou no sofá. No dia seguinte, levei-o à veterinária para tratar a cauda, que estava muito ferida. Ela avisou que o submeteria a uma anestesia geral e sugeriu aproveitar para castrá-lo. Topei. Mike e Teca também haviam sido castrados adultos. Resolvi adotar Zeca. Tentei em vão aproximá-lo de Mike, mas ambos eriçavam os pêlos ao se verem. Conformei-me em dividir o apartamento em dois territórios felinos: o dos dormitórios, pertencente a Mike e Teca, e o dos demais cômodos, propriedade de Zeca. Passei a abastecer ambas as áreas com comida, água e caixa sanitária. Às vezes Zeca cruza a fronteira, e rouba comida no potinho de Mike, no quarto da minha filha, ou me visita no meu, o quartel general de Mike. Por sua vez, Mike dá voltinhas periódicas pela sala, espaço de Zeca, sob os olhares dele. Pêlos eriçados e ameaças de ataques são comuns nessas invasões. Uma semana depois de Zeca chegar, a casa ficou sem gente por algumas horas e aconteceu a primeira briga feia. Ao voltar da rua, encontrei sangue e muitos pêlos no tapete da sala. Zeca estava com a orelha, onde tinha antes um abcesso, ferida. Agora, fechamos a porta que dá acesso ao corredor dos dormitórios sempre que todos saímos. Mesmo assim, o clima de guerra é constante. Às vezes, começa uma briga longe da nossa vigilância, e lá vamos nós. É um tal de jogar toalha em cima dos briguentos, gritar e usar a vassoura para ajudar a apartá-los. No fim, tudo dá certo, exceto pelos arranhões em Mike e Zeca. De uma ano para cá, adotamos Victoria. A gata é toda chegada em Mike e Zeca, ora carinhosa com um, ora com o outro, mas nunca com Teca, à qual até destina algumas patadas, sem obter reação. Teca é do tipo que não dá bola para provocações.”


PRECAUÇÕES DE SAÚDE


Ao adquirir um novo gato, certifique-se de que as vacinas e vermifugações dos gatos veteranos da casa estejam em dia e submeta o novato a um exame geral. O veterinário identificará eventuais problemas, tratará deles e orientará, evitando que os demais gatos sejam prejudicados. Avaliará visualmente se há pulgas, micoses ou sarnas. Pedirá exames para detecção de vermes e de viroses, como as chamadas aids e leucemia felinas. Mesmo se o gato parecer saudável, é recomendável isolá-lo dos demais enquanto não forem conhecidos os resultados dos exames, e por no mínimo uma semana, para dar tempo de se manifestar um eventual mal incubado.

(Consultora: Vet. Monica Daiha, Clínica Gatos & Gatos, Rio de Janeiro.)
Revista Cães & CIA

 

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