Depois
da apresentação do gato ao grupo, é função do dono ficar de
olho, zelando pela harmonia geral, agindo de forma a não estimular
desavenças. Algumas dicas: dar atenção a todos os gatos, distribuir
a alimentação e a água em recipientes individuais, manter caixas
sanitárias superando em uma unidade a quantidade de gatos, ter
espaço para todos os felinos na área de descanso e banho de
sol, oferecer brinquedos à vontade, inclusive arranhador de
escalar. Mais uma vez a castração deve ser mencionada. Sua maior
eficiência para o convívio pacífico ocorre quando é feita antes
da produção dos hormônios sexuais pelo organismo, fator importante
no surgimento de brigas (em geral, nos machos esses hormônios
começam a aparecer entre os 8 e os 12 meses e nas fêmeas, entre
os 5 e 7 meses). “Com a castração precoce, os machos ficam menos
territoriais e as fêmeas perdem os picos de agressividade ligados
ao cio e ao pós-parto”, explica Carlos Alberts. Outra ação para
evitar confrontos é ficar atento a mudanças na interação dos
gatos. Cabe ao dono interromper os desentendimentos no início,
para não virarem brigas. Se surgirem confrontos, é difícil acabar
com eles, mas não impossível. “Uma dica que pode dar certo é
introduzir mais um gato, de preferência filhote, o que redistribui
o território e altera os relacionamentos”, sugere Carlos Alberts.
“Quanto mais gatos houver em um espaço, menor a probabilidade
de brigarem.” O escritor e prêmio nobel de literatura Ernest
Hemingway disse certa vez: “um gato sempre leva a outro”. E
nós completamos: “conviver com muitos gatos é um prazer, maior
ainda quando conseguimos mantê-los em harmonia”.
DIPLOMACIA
À MODA FELINA
Acabaram-se
as ameaças de briga entre a gata Sofia e a recém-chegada Aninha,
quando as intervenções da dona, a corretora de seguros Amara
Luisa Ramos, facilitaram a aproximação.
“Há cerca de dois anos abriguei uma gatinha que vi abandonada
na rua. Ela ainda era pequena — nem desmamada estava. Chamei-a
de Sofia. Por cerca de dez dias, toda a família colaborou: tivemos
de dar mamadeira a ela, aquecê-la com luz artificial e estimulá-la
a urinar e defecar, como fazem as mães gatas com os filhotes.
Sofia cresceu apegada, até demais. Deprimia-se com as minhas
freqüentes ausências e miava triste e alto quando eu não estava.
Pouco brincava e quase não comia. Certo dia, o destino colocou
Aninha à minha frente, no estacionamento de um supermercado.
Era uma gatinha de cerca de um mês de idade. Animada, levei-a
comigo, e apresentei-a a Sofia. Soltei Aninha, que se afastou
assustada. Sofia seguiu-a, cheirou-a, rosnou e pressenti a possibilidade
de uma briga. Tirei Aninha e coloquei-a num lugar não muito
distante. Passado um tempo, Sofia se aproximou de novo, e tudo
recomeçou. Por uma semana a cena se repetiu diariamente. Sempre
havia alguém da família supervisionando para tirar Aninha assim
que surgisse ameaça de briga. Quando Sofia não rosnava, as duas
continuavam juntas. À noite, Sofia dormia na minha cama e a
porta do quarto ficava fechada para Aninha ficar em paz na caminha
da sala. Com esse patrulhamento, elas nunca brigaram e assim
acho que evitamos traumas. Para não facilitar disputas, coloquei
potinhos de ração e água individuais, em 39 lugares diferentes.
Sofia costumava descansar numa cestinha que fica na cozinha.
Aninha descobriu outra na sala de jantar e se apossou dela.
Procurei sempre dedicar igual atenção às duas. Aos poucos, os
rosnados e chiados diminuíram. Em poucos dias, Sofia já dava
as primeiras cheiradas amistosas em Aninha. Depois, arriscou
lambidelas. Passados mais três dias, os sinais da agressividade
eram coisa do passado.Agora, dois anos mais tarde, Sofia e Aninha
continuam se dando bem. Intercalam períodos de solidão — afinal,
são felinas — com momentos de brincadeiras e companheirismo.
De manhã, antes de sair, brincamos as três com bolinhas de papel.
Durante o dia, quando jogamos brinquedinhos para Sofia e Aninha
dorme, Sofia faz questão de levá-los para perto da amiga. A
fórmula é perfeita. Não há mais tristeza. Os choros de Sofia
se foram. Ela se tornou mais brincalhona, passou a comer bem,
e eu posso sair de casa tranqüila, segura de que Aninha e Sofia
ficam em boa companhia”.
O
primeiro encontro de um gato com outros é sempre importante.
As interações iniciais criam o padrão de comportamento futuro.
Por um lado, os rosnados e as disputas ajudam a definir as posições
de cada um, e são aceitos com naturalidade pelos felinos. Por
outro, podem evoluir para o confronto físico e tornar-se o início
de um ciclo de brigas, dificílimo de reverter, ainda mais se
os briguentos saírem feridos. A idade conta muito. Se os gatos
a serem apresentados forem adultos, e tiveram pouco contato
com outros gatos, há uma chance de cerca de 90% de que as coisas
acabem mal. Se o novo gato for filhote ou se for castrado, e
se o veterano já conviveu ou convive com outros gatos, as chances
de sucesso aumentam, mas mesmo assim existe a possibilidade
de brigas. Entre os gatos, o confronto de um adulto com um filhote
é sempre uma possibilidade e pode significar a morte do segundo.
Administrar bem o convívio começa com a introdução do gato novato
sem permitir que uma briga comece. Conheça a maneira mais segura
de obter esse resultado, válida para gatos de todas as idades.
PARA
EVITAR BRIGAS NOS PRIMEIROS ENCONTROS
OS
PREPARATIVOS
Três dias antes de o novo gato chegar
Bloqueie o acesso dos veteranos ao cômodo que abrigará o novo
gato: antes de o novato chegar, impeça o acesso dos veteranos
ao cômodo onde ele ficará temporariamente, para não associarem
a perda daquele espaço com a presença do recém-chegado (veja
Prepare o cômodo para resguardo temporário). Antecipe a criação
de associações positivas pelos veteranos com o cheiro do gato
que virá em breve: isso pode ser feito antes de o novato chegar.
Passe alguns panos nele para o cheiro dele ficar bem impregnado
(mesmo que você não perceba, o odor estará lá). Coloque-os nos
locais mais apreciados pelos gatos da sua casa (embaixo do comedouro,
na caminha, onde brincam). Antes de ficar com eles, esfregue
as suas mãos num dos panos. Mantenha sob controle a atenção
aos veteranos: cuidado para não dar excesso de atenção aos veteranos
nos dias que antecedem a chegada do novato. Diminuí-la depois,
quando ele chegar, causará uma associação negativa.
LOGO APÓS A CHEGADA DO NOVO GATO
Forçando o isolamento inicial
Não permita contatos físicos nem visuais, no começo: antes de
submeter o novato ao estresse da aproximação com os veteranos,
faça-o recuperar-se do estresse da mudança. Geralmente, quatro
dias bastam para ele voltar a se alimentar bem e para as funções
intestinais serem regularizadas. Mas, por questões de saúde,
mantenha o gato confinado por pelo menos uma semana (veja Precauções
de saúde). Reforce as associações positivas usando o cheiro
dos gatos: enquanto o novato se recupera, confinado, manipule-o
pelo menos três vezes ao dia e, sem lavar as mãos, crie oportunidades
para que os veteranos façam associações positivas com o cheiro
dele: brinque com eles, alimente-os e dê-lhes carinho em dose
reforçada. Passe também a alimentar os veteranos perto do cômodo
onde estiver o novato e continue colocando panos impregnados
do cheiro do novo gato nos locais preferidos por eles. Ponha
panos com o cheiro dos veteranos no cômodo do novato.
QUANDO O CHEIRO DO NOVO GATO FOR CONHECIDO
Permitindo os primeiros contatos visuais e olfativos
Dois
endereços por alguns dias: para poder iniciar essa etapa é preciso
que o novato aceite naturalmente ficar na gaiola. Caso contrário,
será necessário acostumá-lo, servindo a comida dentro dela.
Algumas vezes por dia, a gaiola com o novo gato deverá ser posta
próxima aos veteranos em situações agradáveis para eles, como
quando comem, descansam ou brincam, para criar associações positivas.
A primeira aproximação dos veteranos poderá acontecer logo ou
demorar alguns dias. Dê sempre atenção e alimento aos veteranos
perto da gaiola. Quando um deles se aproximar do novato e cheirá-lo,
dê-lhe petiscos. Se tiver atitudes agressivas, reprima espirrando
água com spray. Fora dos períodos dessas interações, o novo
gato irá ao cômodo, para comer, fazer as necessidades e se exercitar.
DEPOIS DE A INTERAÇÃO TER-SE INICIADO
O primeiro contato físico é feito.
O novo gato fica solto, e você observa: leve o gato novato na
gaiola para perto dos demais. Espalhe brinquedos e objetos novos
no local, para não gerar associações negativas. Adicione uma
nova caixa higiênica. Quando os gatos parecerem acostumados
visual e olfativamente ao novato, solte-o. Alguns rosnados são
normais no começo. Se uma briga for iminente, use um spray de
água (veja Separe os briguentos). Fique de olho nas aproximações
espontâneas. Zele para o gato novo não incomodar os veteranos
ao comer, beber e fazer as necessidades. Permita que o veterano
mantenha a sensação de controle sobre seu território, comida
e caixa higiênica. O ideal é a quantidade de caixas sanitárias
superar ade gatos em uma unidade. Enfim, livre, mas sem estímulos
às disputas: passadas as primeiras horas e tudo correndo bem,
administre a interação procurando brincar, dar comida e atenção
aos veteranos e ao novato igualmente. Nunca os deixe disputar
comida; dê os petiscos em pequenos pedaços para que um não possa
roubar do outro.
TÉCNICAS FUNDAMENTAIS
Prepare o cômodo para resguardo temporário: pode ser um quarto
ou banheiro, por exemplo. Equipe-o com o necessário para uma
boa estada do novo gato:comedouro, bebedouro, caixinha sanitária
e brinquedos. Ponha também uma gaiola de tipo exposição, para
o gato não estranhá-la quando for necessária (veja Dois endereços
por alguns dias). Ela deve ter as grades suficientemente estreitas
para impedir que um gato do lado externo machuque o gato do
lado interno.
Volte atrás, se necessário: se o estágio da aproximação não
estiver dando bom resultado, volte ao último passo que funcionou
e retome a aproximação a partir daí.
Elimine causas de disputas: fique atento e aja com rapidez quando
houver ameaça de briga. Se preciso, ponha mais comedouros, bebedouros,
caixas higiênicas, etc.
Evite brigas devido à mudanças: cada nova situação pode ser
causa de brigas. Por exemplo, elas surgem por motivos como:
o gato ir ao veterinário e ao voltar ter que reconquistar território,
que já passou por nova distribuição; aparecer com outro cheiro
depois de tomar banho e ser estranhado e agredido; ficar inseguro,
na defensiva, por terem posto uma roupinha nele, e passar a
agredir os companheiros que se aproximam. Um jeito de evitar
esses problemas é fazer a reaproximação com cuidado, ficando
de olho para interromper o início de uma briga e desviar a atenção
do grupo para um fato novo, com um estímulo, como dar um petisco
para cada um.
Cuidado com mudanças ambientais: introduza com atenção um novo
animal ou pessoa, para não desencadear brigas ou comportamentos
agressivos. Atue cuidadosamente ao mudar de casa ou ao alterar
o lugar onde o gato fica, já que são situações que podem aumentar
a agressividade dele.
Separe os briguentos: deixe espalhados pela casa alguns sprays
com água, com boa mira. As demonstrações de agressividade poderão
virar brigas e deverão ser interrompidas de imediato, com ligeiros
jatos do spray no gato agressor, sem exageros. Apenas o suficiente
para criar uma sensação desconfortável, no exato momento do
confronto. Três segundos depois pode ser tarde demais. Deixe
que os gatos se aproximem novamente, se você sentir segurança,
mas volte a usar o spray se a agressividade retornar, para ficar
claro que a causa do jato é a atitude agressiva. Um gato deve
se sentir seguro na presença de outro. Ser objeto de arranhões
lhe causará medo e ele poderá atacar o outro por defesa. O spray,
além de causar desconforto sem machucar, permite controlar a
situação a distância, evitando que sobrem arranhões para o dono.
Não se deve tentar separar brigas sacudindo comida ou indo em
direção à geladeira, pois com o tempo os gatos aprendem a brigar
para ganhar comida.
ENTRE PÊLOS ERIÇADOS E ARRANHÕES
Depois da chegada do gato Zeca ao apartamento onde já vivia
o gato Mike, o clima de guerra começou no lar da instrumentadora
cirúrgica Vera Shiota, de São Paulo.
“Zeca entrou em nossas vidas há cerca de dois anos. Foi quando
eu esperava o elevador. Vi Zeca me olhando — alguns moradores
do prédio costumam deixar comida para gatos no piso térreo e
eles sempre aparecem. Chamei-o, Zeca veio, entrou comigo no
elevador e me acompanhou ao apartamento, onde se encontravam
Mike, o meu gato de três anos, e a mãe dele, Teca, que tirei
das ruas quando estava prenhe, esperando inclusive o próprio
Mike. Ao ver o intruso, Mike fugiu para o nosso quarto, onde
dorme na minha cama. Abriu a porta do armário e se escondeu.
Teca, mais tranqüila, foi até a caminha dela no quarto da minha
filha. Não estranhei a reação. Esse comportamento é típico da
dupla quando levo gatos para alimentar em casa. Depois de comer,
Zeca inspecionou o apartamento e se instalou no sofá. No dia
seguinte, levei-o à veterinária para tratar a cauda, que estava
muito ferida. Ela avisou que o submeteria a uma anestesia geral
e sugeriu aproveitar para castrá-lo. Topei. Mike e Teca também
haviam sido castrados adultos. Resolvi adotar Zeca. Tentei em
vão aproximá-lo de Mike, mas ambos eriçavam os pêlos ao se verem.
Conformei-me em dividir o apartamento em dois territórios felinos:
o dos dormitórios, pertencente a Mike e Teca, e o dos demais
cômodos, propriedade de Zeca. Passei a abastecer ambas as áreas
com comida, água e caixa sanitária. Às vezes Zeca cruza a fronteira,
e rouba comida no potinho de Mike, no quarto da minha filha,
ou me visita no meu, o quartel general de Mike. Por sua vez,
Mike dá voltinhas periódicas pela sala, espaço de Zeca, sob
os olhares dele. Pêlos eriçados e ameaças de ataques são comuns
nessas invasões. Uma semana depois de Zeca chegar, a casa ficou
sem gente por algumas horas e aconteceu a primeira briga feia.
Ao voltar da rua, encontrei sangue e muitos pêlos no tapete
da sala. Zeca estava com a orelha, onde tinha antes um abcesso,
ferida. Agora, fechamos a porta que dá acesso ao corredor dos
dormitórios sempre que todos saímos. Mesmo assim, o clima de
guerra é constante. Às vezes, começa uma briga longe da nossa
vigilância, e lá vamos nós. É um tal de jogar toalha em cima
dos briguentos, gritar e usar a vassoura para ajudar a apartá-los.
No fim, tudo dá certo, exceto pelos arranhões em Mike e Zeca.
De uma ano para cá, adotamos Victoria. A gata é toda chegada
em Mike e Zeca, ora carinhosa com um, ora com o outro, mas nunca
com Teca, à qual até destina algumas patadas, sem obter reação.
Teca é do tipo que não dá bola para provocações.”
PRECAUÇÕES DE SAÚDE
Ao adquirir um novo gato, certifique-se de que as vacinas e
vermifugações dos gatos veteranos da casa estejam em dia e submeta
o novato a um exame geral. O veterinário identificará eventuais
problemas, tratará deles e orientará, evitando que os demais
gatos sejam prejudicados. Avaliará visualmente se há pulgas,
micoses ou sarnas. Pedirá exames para detecção de vermes e de
viroses, como as chamadas aids e leucemia felinas. Mesmo se
o gato parecer saudável, é recomendável isolá-lo dos demais
enquanto não forem conhecidos os resultados dos exames, e por
no mínimo uma semana, para dar tempo de se manifestar um eventual
mal incubado.
(Consultora: Vet. Monica Daiha, Clínica Gatos & Gatos, Rio de
Janeiro.)
Revista Cães & CIA
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