|
|
|
SAÚDE ANIMAL
Leptospirose
Definição:
A leptospirose é uma doença infecciosa febril,
aguda, potencialmente grave, causada por uma bactéria,
a Leptospira interrogans. É uma zoonose (doença
de animais) que ocorre no mundo inteiro, exceto
nas regiões polares. Em seres humanos, ocorre em pessoas
de todas as idades e em ambos os sexos. Na maioria (90%) dos
casos de leptospirose a evolução é benigna.
Transmissão:
A
leptospirose é primariamente uma zoonose. Acomete roedores
e outros mamíferos silvestres e é um problema
veterinário relevante, atingindo animais domésticos
(cães, gatos) e outros de importância econômica
(bois, cavalos, porcos, cabras, ovelhas). Esses animais, mesmo
quando vacinados, podem tornar-se portadores assintomáticos
e eliminar a L. interrogans junto com a urina.
O
rato de esgoto (Rattus novergicus) é o principal responsável
pela infecção humana, em razão de existir
em grande número e da proximidade com seres humanos.
A L. interrogans multiplica-se nos rins desses
animais sem causar danos, e é eliminada pela urina,
às vezes por toda a vida do animal. O homem é
infectado casual e transitoriamente, e não tem importância
como transmissor da doença. A transmissão de
uma pessoa para outra é muito pouco provável.
A L. interrogans eliminada junto com a urina de animais sobrevive
no solo úmido ou na água, que tenham pH neutro
ou alcalino. Não sobrevive em águas com alto
teor salino. A L. interrogans penetra através da pele
e de mucosas (olhos, nariz, boca) ou através da ingestão
de água e alimentos contaminados. A presença
de pequenos ferimentos na pele facilita a penetração,
que pode ocorrer também através da pele íntegra,
quando a exposição é prolongada.
|
|
Riscos:
No
Brasil, como em outros países em desenvolvimento, a maioria
das infecções ocorre através do contato
com águas de enchentes contaminadas por urina de ratos.
Nesses países, a ineficácia ou inexistência
de rede de esgoto e drenagem de águas pluviais, a coleta
de lixo inadequada e as conseqüentes inundações
são condições favoráveis à
alta endemicidade e às epidemias. Atinge, portanto, principalmente
a população de baixo nível sócio-econômico
da periferia das grandes cidades, que é obrigada a viver
em condições que tornam inevitável o contato
com roedores e águas contaminadas. A infecção
também pode ser adquirida através da ingestão
de água e alimentos contaminados com urina de ratos ou
por meio de contato com urina de animais de estimação
(cães, gatos), mesmo quando esses são vacinados.
A limpeza de fossas domiciliares, sem proteção
adequada, é uma das causas mais freqüentes de aquisição
da doença.
Existe risco ocupacional para as pessoas que têm contato
com água e terrenos alagados (limpadores de fossas e
bueiros, lavradores de plantações de arroz, trabalhadores
de rede de esgoto, militares) ou com animais (veterinários,
pessoas que manipulam carne). Em países mais desenvolvidos,
com infra-estrutura de saneamento mais adequada, a população
está menos exposta ao contágio. É mais
comum que a infecção ocorra a partir de animais
de estimação e em pessoas que se expõem
a água contaminada, em razão de atividades recreativas
ou profissionais.
Entre 1985 e 1997, foram notificados 35.403 casos de leptospirose,
com 3.821 óbitos (letalidade média de 12,5%).
Apenas os casos mais graves (ictéricos) são, geralmente,
diagnosticados e, eventualmente, notificados. A leptospirose
sem icterícia é, freqüentemente, confundida
com outras doenças (dengue, gripe), ou não leva
à procura de assistência médica. A notificação,
portanto, representa apenas uma pequena parcela (provavelmente
cerca de 10%) do número real de casos no Brasil.
Medidas de proteção individual:
Recomenda-se
ao viajante que adote as medidas de proteção contra
doenças adquiridas através do contato com a água
e da ingestão de água e alimentos.
O risco de adquirir leptospirose pode ser reduzido, através
de algumas medidas:
- evitando-se o contato ou ingestão de água que
possa estar contaminada com urina de animais;
- deve ser utilizada apenas água tratada (clorada) como
bebida e para a higiene pessoal. Bebidas como água mineral,
refrigerantes e cervejas não devem ser ingeridas diretamente
de latas ou garrafas, sem que essas sejam lavadas adequadamente
(risco de contaminação com urina de rato);
- deve ser utilizado um copo limpo ou canudo plástico.
Em caso de inundações, deve ser evitada a exposição
desnecessária em água ou lama. Pessoas que irão
se expor ao contato com água e terrenos alagados devem
utilizar roupas e calçados impermeáveis;
O uso generalizado de antibióticos profiláticos
é ineficaz para evitar ou controlar epidemias de leptospirose.
Além de ser tecnicamente inadequado, desvia inutilmente
recursos humanos e financeiros.
A quimioprofilaxia está indicada apenas para indivíduos,
como trabalhadores e militares em manobras, que irão
se expor a risco em áreas de alta endemicidade por período
relativamente curto;
A vacina não confere imunidade permanente e não
está disponível para seres humanos no Brasil.
Em alguns países é utilizada a vacinação
contra sorotipos específicos em pessoas sob exposição
ocupacional em áreas de alto risco. A vacina disponível
para animais evita a doença, mas não impede a
infecção nem a transmissão para seres humanos.
Recomendações para áreas com risco de transmissão:
a.. O acesso permanente à informação é
essencial. É importante que a população
seja esclarecida sobre as razões que determinam a ocorrência
de leptospirose e o que deve ser feito para evitá-la.
b.. Deve ainda ter acesso fácil aos serviços de
diagnóstico e tratamento
c.. O risco de transmissão pode ser reduzido nos centros
urbanos através da melhoria das condições
de infra-estrutura básica (rede de esgoto, drenagem de
águas pluviais, coleta adequada do lixo e eliminação
dos roedores)
d.. A limpeza e dragagem de córregos e rios
são medidas fundamentais para reduzir a ocorrência
de inundações
e.. Equipamentos de proteção, como botas e luvas
impermeáveis, devem ser oferecidos às pessoas
com risco ocupacional
f.. Quando ocorrem inundações, deve ser evitado
contato desnecessário com a água e com a lama.
Se a residência for inundada, deve-se desligar a rede
de eletricidade para evitar acidentes
g.. O mesmo cuidado deve ser observado após inundações,
antes do início da limpeza domiciliar, que deve ser feita
com o uso de calçados e luvas impermeáveis
idemias
i.. Quando há suspeita de contaminação
da rede de água, a companhia responsável pela
distribuição deve ser notificada. Nessas circunstâncias,
a água deve ser fervida ou tratada com cloro
j.. O mesmos cuidados devem ser adotados quando a água
é proveniente de poços
k.. Devem ser observados os seguintes cuidados ao escolher um
local para residir, informar-se sobre a freqüência
de inundações
l.. Evitar locais sujeitos a inundações frequentes.
Em caso de utilização de água de poços
ou coletada diretamente de rios ou lagoas, estabelecer (com
supervisão técnica especializada) uma infra-estrutura
domiciliar mínima que permita o tratamento (cloração)
da água utilizada para consumo e preparo de alimentos
m.. Seguir os cuidados de preparação higiênica
de alimentos, incluindo o tratamento com água clorada
n.. Os alimentos devem ser acondicionados em recipientes e locais
à prova de ratos
o.. Acondicionar o lixo domiciliar em sacos plásticos
fechados ou latões com tampa. Se não houver serviço
de coleta, deve ser escolhido um local adequado para o destino
final do lixo que permita o aterramento ou a incineração
periódica
p.. O acúmulo de lixo e entulho em quintais e terrenos
baldios leva à proliferação de ratos
q.. O despejo de lixo em córregos ou rios facilita a
ocorrência de inundações. Em caso de inundações,
evitar a exposição desnecessária em água
ou lama.
r.. Descartar alimentos que entraram em contato direto com água
de enchentes e não possam ser fervidos. Utilizar luvas
e calçados impermeáveis quando for inevitável,
nas enchentes, a exposição à água
ou à lama. Realizada a limpeza da residência após
uma inundação feita a limpeza de fossas e bueiros.
Efetuada a remoção de fezes e urina de animais
de estimação empregar hipoclorito de sódio
(água sanitária) a 2-2,5%, segundo as recomendações
do fabricante, para limpeza de locais onde são criados
animais de estimação e residências, após
uma inundação.
Manifestações:
A maioria das pessoas infectadas pela Leptospira interrogans
desenvolve sintomas discretos ou não apresenta manifestações
da doença. As manifestações da leptospirose,
quando ocorrem, em geral aparecem entre 2 e 30 dias após
a infecção (período de incubação
médio de dez dias).
As manifestações iniciais são febre alta
de início súbito, sensação de mal
estar, dor de cabeça constante e acentuada, dor muscular
intensa, cansaço e calafrios. Dor abdominal, náuseas,
vômitos e diarréia são freqüentes,
podendo levar à desidratação. É
comum que os olhos fiquem acentuadamente avermelhados (hiperemia
conjuntival) e alguns doentes podem apresentar tosse e faringite.
Após dois ou três dias de aparente melhora, os
sintomas podem ressurgir, ainda que menos intensamente. Nesta
fase é comum o aparecimento manchas avermelhadas no corpo
(exantema) e pode ocorrer meningite, que em geral tem boa evolução.
A maioria das pessoas melhora em quatro a sete dias. Em cerca
de 10% dos pacientes, a partir do terceiro dia de doença
surge icterícia (olhos amarelados), que caracteriza os
casos mais graves. Esses casos são mais comuns (90%)
em adultos jovens do sexo masculino, e raros em crianças.
Aparecem manifestações hemorrágicas
(equimoses, sangramentos em nariz, gengivas e pulmões)
e pode ocorrer funcionamento inadequado dos rins, o que causa
diminuição do volume urinário e, às
vezes, anúria total. O doente pode ficar torporoso e
em coma. A forma grave da leptospirose é denominada doença
de Weil. A evolução para a morte pode ocorrer
em cerca de 10% das formas graves. As manifestações
iniciais da leptospirose são semelhantes às de
outras doenças, como febre amarela, dengue,
malária, hantavirose e hepatites.
A presunção do diagnóstico de leptospirose
é feita com base na história de exposição
ao risco (inundações, limpeza de bueiros e fossas,
contato com animais de estimação) e na exclusão,
através de exames laboratoriais, da possibilidade de
outras doenças. Mesmo que tenham história de risco
para leptospirose, pessoas que estiveram em uma área
de transmissão de febre amarela e malária, e que
apresentem febre, durante ou após a viagem, devem ter
essas doenças investigadas. A leptospirose grave, que
evolui com icterícia, diminuição do volume
urinário e sangramentos é semelhante à
forma grave da febre amarela. A diferenciação
pode ser feita com facilidade através de exames laboratoriais.
A icterícia é rara nos casos de dengue.
Nas hepatites, em geral, quando surge a icterícia a febre
desaparece. É importante que a pessoa, quando apresentar-se
febril após uma exposição de risco para
leptospirose, procure um Serviço de Saúde rapidamente.
Não se justifica a utilização generalizada
de antibióticos para a população em períodos
de epidemias. É mais racional diagnosticar e tratar precocemente
os casos suspeitos.
A confirmação do diagnóstico de leptospirose
não tem importância para o tratamento da pessoa
doente, mas é fundamental para a adoção
de medidas que reduzam o risco de ocorrência de uma epidemia
em área urbana. Pode ser feita através de exames
sorológicos (microaglutinação pareada,
com uma amostra de sangue colhida logo no início da doença
e outra duas semanas após), ou do isolamento da bactéria
em cultura (que tem maior chance de ser feito durante a primeira
semana de doença).
O tratamento da pessoa com leptospirose é feito fundamentalmente
com hidratação. Não deve ser utilizado
medicamentos para dor ou para febre que contenham ácido
acetil-salicílico (AAS, Aspirina, Melhoral etc.), que
podem aumentar o risco de sangramentos. Os antiinflamatórios
(Voltaren, Profenid etc.) também não devem ser
utilizados pelo risco de efeitos colaterais, como hemorragia
digestiva e reações alérgicas. Quando o
diagnóstico é feito até o quarto dia de
doença, devem ser empregados antibióticos (doxiciclina,
penicilinas), uma vez que reduzem as chances de evolução
para a forma grave. As pessoas com leptospirose sem icterícia
podem ser tratadas no domicílio. As que desenvolvem meningite
ou icterícia devem ser internadas. As formas graves da
doença necessitam de tratamento intensivo e medidas terapêuticas
como diálise peritonial para tratamento da insuficiência
renal.
Fontes parciais
http://www.cives.ufrj.br/informacao/leptospirose/lep-iv.html
http://www.funasa.gov.br/pub/GVE/GVE0518A.htm
VOLTAR A SAÚDE ANIMAL
|
|